• Adastra

Uma coleção de impermanências


Neste texto, Mariana nos coloca no lugar de seus próprios braços, ansiando por abraços acalentadores e nos convida a ser, pelo tempo das linhas, seus próprios pés e chão. Um chão transitório, um estar que deseja ser. É essa existência quase líquida - lembrando aqui de Zygmunt Bauman - de que trata a autora, uma mente brilhante que vive no Espectro do Autismo e espalha sensibilidade por onde caminha.

 

Talvez tenha sido os anos de filmes e livros, talvez fosse a contradição com que me percebia nos toques e afetos ou a confusão com a qual eu os sentia; mas um dos meus mais profundos anseios é o abraço, o toque; não porque houvesse sido privada dessas experiências, acho que mais porque eu nunca realmente as compreendia o suficiente para vivê-las de verdade.

Em certos momentos os toques e abraços me irritavam, sentia muito desconforto e queria me desvencilhar daquele momento o mais rápido possível; em outros, eu os desejava mais que tudo porque tinham o poder de dissipar medos e construir uma segurança mais certa do que o próprio chão. O que me confundia sobremaneira era que essa inconstância entre aversão e anseio não estava relacionada à pessoa e ao seu carinho por mim ou o meu carinho por ela, mas à intensidade da minha segurança de sua permanência e até mesmo da insegurança dessa permanência misturada ao afeto intenso e vontade de ser segura; aqui é mesmo o verbo ser, porque estar seguro é muito efêmero e essa transitoriedade é a essência dos meus medos.

Nem sempre sou capaz de compreender o que é esperado de mim num relacionamento nem o que posso ou não esperar da outra pessoa. Já me disseram que eu as sobrecarrego com cobranças. Sei que relacionamentos mudam e se transformam ao longo do tempo, pessoas mudam, amigos mudam, só que em mim parece que o tempo é demorado; costumo entrar atrasada em uma amizade e quando finalmente me permito completamente estar ali e ser ali, contextos mudam porque o tempo passou, situações mudaram, dinâmicas de conversas mudaram, mas em mim, ainda estava apenas começando.

Os conselhos que me dizem, ninguém é sempre a mesma pessoa, não são na verdade reconfortantes, porque quando eu aprendo como agir e ser, o que dizer e quando, no dia seguinte esse padrão deve ser substituído, então tento respirar e estudar como ser e agir e o que dizer daqui para frente, quando finalmente aprendo, o contexto trouxe novas demandas e esse padrão formado já não se aplica mais; é como dançar uma canção sem compasso estabelecido; me sinto tropeçando nos meus pés até compreender a melodia e quando consigo, a canção mudou, mudou o compasso e ritmo; retomo meus passos desajeitados e trôpegos novamente.

O que isso tem a ver com o anseio do abraço? Bom, tudo. Porque assim como eu vivi entre a aversão e o anseio do abraço, sem conseguir viver a experiência de verdade, os relacionamentos parecem funcionar da mesma forma; acho que quando finalmente um abraço se tornava seguro e confortável o tempo de abraçar ia embora outra vez.

Para contatos, afeto, relacionamentos dentro de mim, o tempo está atrasado de novo, ainda estamos naquele momento em que abraços e risadas podem ser antecipados dentro do contexto, no entanto o momento mudou de novo, as demandas mudaram de novo e até o contexto mudou por causa da mudança de inúmeros outros fatores que eu perdi e não percebi, me atrasei, estou tropeçando novamente.


Mariana Komesu

Abraço, ilustração da autora, Aquarela sobre canson

Instagram da autora:

Mariana.komesu

https://www.instagram.com/mariana.komesu/?hl=pt-br

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