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Presidente da ISAAC-Brasil é a entrevistada da semana

Confira abaixo a segunda parte do bate-papo com a fonoaudióloga Eliana Cristina Moreira sobre o capítulo brasileiro da ISAAC, Comunicação Alternativa e seu panorama no Brasil, além de sua atuação profissional no serviço público.



Você falou que é a atual presidente. Tem um período de gestão?

O período de gestão é de dois anos. Eu sou a atual presidente e o período de gestão é 2018-2019. Mas eu estou como presidente há seis anos.


Existem três denominações acerca da Comunicação Alternativa. Você poderia explicar um pouco a respeito delas?

O termo vem do inglês, argumentative and alternative communication. Lá fora todo mundo fala AAC. Aqui no Brasil, quando ele foi traduzido pela primeira vez, a tradução ao pé da letra seria comunicação aumentativa e alternativa. Mas naquele momento, as pessoas acharam que aumentativa não era o termo mais adequado. E procurando no dicionário e entendendo no que consistia a Comunicação Alternativa, uma das primeiras traduções aqui no Brasil foi comunicação suplementar e alternativa. Isso porque seria um trabalho realizado por pessoas com necessidades complexas de comunicação que poderia ser uma alternativa de comunicação e também poderia suplementar os recursos que aquela pessoa já tinha. Se a pessoa fala de maneira inteligível, ela vai poder suplementar pra que os interlocutores possam entender.

Em Portugal, é usada Comunicação Alternativa e Aumentativa. Algumas pessoas aqui no Brasil começaram a usar o termo também porque manteria a sigla CAA. Uma terceira tradução seria Comunicação Alternativa e Ampliada, uma tradução que veio daqui do Brasil e se pensou em se manter a sigla CAA, então o melhor termo seria “ampliada”. É por isso que temos três traduções.


Sendo a atual presidente, você pode apresentar um panorama atual da Comunicação Alternativa no Brasil? Existe diferença entre regiões, por exemplo?

Acho que demos passos importantes, mas ainda é pouco perto das necessidades do Brasil. Atualmente, há pessoas com poder aquisitivo conseguindo ter realmente acesso a esse trabalho. Mas para a grande maioria das pessoas com necessidade complexa de comunicação que dependem dos serviços públicos de saúde e educação essa não é a realidade.

Há instituições como a APAE (Associação de Pais e Amigos de Excepcionais), mas apenas algumas fazem esse trabalho de Comunicação Alternativa com a sua população. A AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) tem uma história importante na área, mas ainda é pouco para a realidade do Brasil. Precisaria haver uma formação contínua para que mais profissionais pudessem fazer esse trabalho tanto no serviço público de saúde, no serviço público educacional, nas redes privadas.

Outra questão bem importante, neste momento, é a gente começar a pensar em políticas públicas, principalmente na concessão de equipamentos de Comunicação Alternativa para pessoas com necessidade complexa de comunicação. Na minha concepção, teria que seguir mais ou menos o modelo do Programa de Saúde Auditiva (Programa de aquisição de prótese auditiva do Ministério da Saúde – avaliação, indicação e adaptação). Como fonoaudióloga, acredito que teriam que ser feitas avaliações dentro do serviço público, depois solicitar ao Ministério da Saúde e o equipamento sai no nome da pessoa com necessidade complexa de comunicação. É dele, assim como o aparelho auditivo, a cadeira de rodas. Só que não pode ser uma avaliação de serviço privado. A gente teria que estar trabalhando para ter um serviço público preparado para avaliar, trabalhar, indicar esses equipamentos de Comunicação Alternativa. Aqui é necessário organizarmos uma força tarefa para que passos venham ser dados na direção de um Programa em 2020.


Essa sua última fala, você está expondo sua visão pessoal ou como representante da ISAAC?

Nas reuniões da ISAAC-Brasil temos conversado sobre a questão das políticas públicas e dos equipamentos. Não existe ainda nenhum documento, mas a gente tem discutido sim a necessidade de que aconteça dessa maneira.

Na ISAAC-Brasil há pessoas de todos os tipos: fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, pessoas da universidade, pessoas do serviço privado, poucas do serviço público. Nesse sentido, é uma posição da ISAAC (diretoria executiva e diretoria expandida) direcionar uma ação em relação às políticas públicas. Mas pensar os equipamentos de tecnologia assistiva da Comunicação Alternativa como um Programa ligado ao Ministério da Saúde é uma visão pessoal minha.


Você trabalhou como fonoaudióloga na Prefeitura de São Paulo?

Trabalhei 28 anos e meio no serviço público, sempre atuando como fonoaudióloga clínica. Nesse período, participei de vários projetos, mas nunca fiquei em cargos administrativos.


Com essa bagagem de vida profissional, como você observa essa possível implementação nos serviços públicos? Você poderia contar um pouco da sua experiência pessoal?

Acho que as necessidades de saúde são muitas. No SUS, há três diretrizes e uma delas diz respeito a equidade. Na prática: que você possa dar para aquele indivíduo que precisa mais, um pouco mais; para aquele que precisa menos, um pouco menos, mas esses recursos são direcionados a partir de estudos sobre os problemas e as necessidades e o planejamento deverá proporcionar alguma coisa para cada um. A equidade é bem difícil porque algumas pessoas têm uma interpretação equivocada do conceito. Alguns acham que primeiro você tem de dar o básico para todo mundo, o que não é bem isso. Você tem que dar, lógico que para todos, mas o que essas pessoas necessitam.

Nesse sentido, a gente precisa começar a entender que o trabalho de Comunicação Alternativa teria que ter um lugar mais estruturado que, na minha concepção como fonoaudióloga, seriam os CER (Centro Especializado em Reabilitação), mas não só nesse lugar. Talvez também algum trabalho com agentes comunitários, nas Unidades Básicas de Saúde, ter alguma coisa com assistência social, isto é, pensar no trabalho de uma maneira mais ampla.

Outro conceito muito forte, hoje, no SUS, é o trabalho em rede. Seria preciso juntar saúde, educação e assistência social. Essa é minha concepção. Não acredito que é por falta de dinheiro que a gente não faz. Acredito e vejo pela minha experiência: você pode conseguir dar alguma resposta às demandas, obviamente não responderemos a tudo.

Para isso, seria preciso um projeto a longo prazo, não de uma só gestão. É muito comum no serviço público a quebra os projetos. Nesse sentido, eu penso que deveríamos ter alguns projetos dentro da ISAAC-Brasil: colaborar, coordenar, alimentar ações que possam criar um impacto no serviço público.


Existem experiencias positivas no serviço público de outros países, visto que a ISAAC também é internacional?

Sim. No Canadá, por exemplo, o sistema de saúde é diferente, mas lá você tem a concessão dos equipamentos de comunicação via avaliação de um profissional. Em outros países, não tenho a dimensão de como seja organizado o sistema de saúde.

A ISAAC- Brasil tem o nome ISAAC por ser um capítulo da organização. Foi uma decisão dos fundadores manter o nome ISAAC. Mas o que eu percebo é que nos outros países existe um trabalho muito maior em rede, com educação e saúde trabalhando muito juntas, fazendo projetos a longo prazo, e isso é um diferencial para você conseguir um impacto e continuidade.

Mas não acho que o Brasil seja o pior. Estamos muito melhor do que a Argentina, o Paraguai, o Uruguai, Peru, México. Agora, o Brasil é grande, né? Há uma diferença gritante. Por isso, eu penso o quanto seria importante a gente investir no serviço público, serviço de saúde, educação e assistência social e trabalhar em rede. Aí penso que conseguiríamos impacto social, de qualidade de vida para as pessoas com necessidades complexas.

E, logicamente, essa formação as universidades também poderiam estar colaborando, também juntarmos com tantas APAEs que existem por aí. Elas também têm pouquíssimos recursos. Então que a gente pudesse ter um trabalho em conjunto assim como a gente conseguiu com a Fundação Down. Foi uma experiência bem importante na história da ISAAC- Brasil.


E a ISAAC já está com quantos anos?

Nossa fundação ocorreu em 2005. Ela foi fundada no 1º Congresso, no Rio de Janeiro. Houve uma reunião que se tornou a ata da fundação, mas ela foi registrada em novembro. Então está com 14 anos.


Em outubro foi realizado o mês de Conscientização para a Comunicação Alternativa. Houve um feedback da reverberação deste mês em vários locais?

As pessoas estão mandando agora o que realizaram no mês de outubro. Posso te falar que no primeiro ano que fizemos, em 2017, foram somente seis ações e tivemos conhecimento de sete.

Em 2018, fizemos dez ações, mas só tive conhecimento de três - que quiseram colocar no site. Acredito que este ano podemos chegar em umas vinte.


Para mais informações, qual o melhor contato?

O site www.isaacbrasil.org.br ou envio de e-mail para secretaria@isaacbrasil.org.br.


Por Natália Zen

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